terça-feira, 15 de abril de 2008

Em marte

passava por acaso diante da tv no domingo, quando era exibido um filme imbecil, porém divertido (uma coisa não exclui a outra?): "meu marciano favorito". mas não há nada tão idiota de que não se possa tirar pelo menos uma coisa interessante... o fato era que o protagonista do filme, o marciano, que veio parar na terra não sei por que cargas d'água - eu vi a umas duas seqüências, nada mais -, desmontava-se ao se sentir deprimido.

braços prum lado, pernas pro outro, cabeça a rolar... desarticulou-se inteiro por se sentir triste. mas isso não significou nada além da distância entre as partes do corpo. ele continuava uno, inteiro, ligado, mesmo tendo a cabeça no cesto de roupa suja e o tórax no sofá da sala.

identificações à parte, comigo é bem diferente. diante da aparente unidade do corpo, me pergunto: o que é isso? mãos, pernas, braços, cabeça, ombros? e como doem às vezes.

sou partes, pedaços, entranhas. e o que mais? o que mais me confere ser? eu? uma pessoa? o que me consola?

"Sou eu, eu mesmo, tal qual resultei de tudo,
Espécie de acessório ou sobressalente próprio,
Arredores irregulares da minha emoção sincera,
Sou eu aqui em mim, sou eu.
Quanto fui, quanto não fui, tudo isso sou.
Quanto quis, quanto não quis, tudo isso me forma.
Quanto amei ou deixei de amar é a mesma saudade em mim.

(...)

De que mais vale ser criança que querer compreender o mundo.

(...)

E não as lágrimas mortas de custar a engolir.

(...)

Sou eu mesmo, a charada sincopada
Que ninguém da roda decifra nos serões de província.
Sou eu mesmo, que remédio! ..."

(Álvaro de Campos)

EU DECEPEI O POEMA e a mim. RS

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